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A Epic e o fim do código escrito à mão

Segundo a imprensa, a Epic Games mandou uma equipe parar de escrever código à mão. O que foi dito, o que está por trás e onde achamos que a linha deve ser traçada.

  • Análise
  • 17/10/2026
  • 5 min de leitura

Em 12 de outubro, a Bloomberg noticiou que a Epic Games, a empresa por trás de Fortnite e da Unreal Engine, tinha adiado um jogo que está fazendo com a Disney e orientado a equipe a trabalhar com “IA em primeiro lugar”. Em uma mensagem interna vista pela Bloomberg, o diretor do jogo escreveu que não haveria “mais código escrito à mão” e que a arte deveria ser “gerada com fluxos de trabalho totalmente de IA”. É a declaração mais clara até agora de um grande estúdio de que as pessoas devem parar de fazer o produto à mão e começar a dirigir as máquinas que o fazem. Veja o que foi noticiado, o que está por trás e onde achamos que a linha deve ser traçada.

O que foi noticiado

O jogo é um shooter com personagens da Marvel e de Star Wars, parte do universo que a Disney e a Epic combinaram construir quando a Disney comprou uma participação de 1,5 bilhão de dólares na Epic em 2024. Segundo as reportagens, a equipe foi orientada a se apoiar fortemente em IA para código e arte, com ferramentas como o Claude, da Anthropic: “Depois, humanos vão gerenciar e orientar esse trabalho.” O jogo estava previsto para março. Nenhuma data nova foi divulgada.

A Bloomberg descreveu o caso como a primeira vez que uma grande empresa de games tenta fazer um título principalmente com IA. O Nintendo Life, ao resumir a reportagem, escreveu que a notícia deixou “alguns desenvolvedores da Epic atordoados”. A Epic não comentou o projeto. O CEO da empresa, Tim Sweeney, escreveu no X: “Temos uma enorme guinada em andamento aqui na Epic, remanejando desenvolvedores para nos reequiparmos para a máxima aceleração com IA.” O objetivo, disse ele, é que as pessoas construam mais coisas, e melhores, não fazer o mesmo trabalho com menos gente.

Mil empregos em março

A guinada vem sete meses depois de um corte duro. Em 24 de março, Sweeney disse aos funcionários: “Hoje estamos demitindo mais de 1000 colaboradores da Epic.” Ele citou “a queda no engajamento de Fortnite que começou em 2025” e disse que a empresa estava “gastando significativamente mais do que ganhamos”. A VGC estimou o corte em até 23 por cento do quadro e relatou que Sweeney fez questão de dizer que não tinha a ver com IA. Se a IA aumentar a produtividade, escreveu ele, a Epic quer “o maior número possível de desenvolvedores incríveis criando conteúdo e tecnologia excelentes”.

No papel, as duas declarações se encaixam: menos pessoas por razões de negócio e, depois, mais produção de quem ficou. Dentro de um estúdio, a sensação provavelmente é outra. Uma equipe que acabou de ver mais de mil colegas irem embora agora ouve que o seu código não será mais digitado por pessoas. No digitec, Luca Fontana pôs o clima na manchete: IA no lugar de pessoas, a Epic fala sério, e ele teme o pior.

O Xbox traça a linha em outro lugar

A mesma semana mostrou outra forma de dizer isso. Quando Asha Sharma assumiu a área de games da Microsoft em fevereiro, ela prometeu: “não vamos correr atrás de eficiência de curto prazo nem inundar nosso ecossistema com AI slop sem alma.” E: “Jogos são e sempre serão arte, feita por humanos”. Em 13 de outubro, ela anunciou o Xbox Labs, liderado pelo diretor de tecnologia do Xbox, Scott Van Vliet, “um pequeno grupo de criadores de jogos, engenheiros e cientistas cujo trabalho é transformar ideias emergentes em coisas que nossos jogadores e desenvolvedores possam experimentar.”

O ponto de partida foi o que os fãs fizeram nas últimas semanas, com “jogos rapidamente descompilados e reconstruídos para rodar em hardware para o qual nunca foram projetados”, um trabalho que as ferramentas de IA tornaram rápido. A medida de sucesso dela: “se mais pessoas estão jogando e criando.” As duas empresas apostam em IA. A diferença está no que elas contam. Um memorando conta o código que deixou de ser escrito à mão. O outro conta jogadores e criadores. Achamos que a segunda medida é a melhor, para games e para a maior parte do software.

Onde a regra erra

Que a IA escreva a maior parte do código não é a parte polêmica. É assim que nós também construímos, e em muitas equipes isso já é normal. O problema é a regra absoluta. Um código que nenhuma pessoa escreve ainda precisa de uma pessoa que consiga lê-lo, testá-lo e dizer não. Uma equipe que ouve que nunca deve digitar código logo se torna uma equipe que já não consegue julgá-lo, e um agente só é tão bom quanto a pessoa que revisa o trabalho dele.

Os games deixam isso especialmente visível, porque o que importa é a sensação: o peso de um salto, o timing de um golpe, o meio segundo que torna uma fase justa. Isso é gosto, e gosto se aprende fazendo coisas. Quando fazer fica barato, as pessoas que sabem distinguir o bom do quase bom se tornam a parte escassa da equipe. A arte feita com fluxos de trabalho totalmente de IA esbarra no mesmo limite. As ferramentas são rápidas e, sem uma mão firme, seus resultados derivam para a mesma média.

Quem será o próximo sênior

A pergunta que mais importa está no começo das carreiras. Em 16 de outubro, a Anthropic publicou dados sobre as próprias contratações. A parcela de profissionais juniores nos seus departamentos técnicos caiu de 21 para 14 por cento desde o início de 2025, e “a proporção de contratações técnicas juniores caiu ainda mais rápido, de 27 para 9 por cento.” As contratações técnicas continuaram crescendo em números absolutos, e a Anthropic não afirma que a IA causou a mudança. Seus gestores de contratação agora observam “se os candidatos demonstraram uso criativo de ferramentas de IA” e dão mais peso a discernimento e comprometimento do que a uma especialização estreita.

Se as empresas que constroem as ferramentas contratam menos juniores e os estúdios mandam suas equipes pararem de escrever código, o caminho de júnior a sênior fica estreito. Seniores são pessoas que um dia escreveram muito código ruim e aprenderam por que ele era ruim. Alguém precisa planejar como os próximos vão aprender isso, ou o setor vai ficar sem exatamente as pessoas capazes de verificar o que os agentes produzem.

Como traçamos a linha

No Werk, nossa plataforma de apps, a IA escreve a maior parte do código sobre um framework que construímos e em que confiamos. As pessoas decidem o que construir, desenham a experiência de uso e revisam cada versão. Nossa regra não é “nenhum código escrito à mão”. É “nenhum código que ninguém leu”. Isso é mais lento do que um slogan, e muito mais rápido do que consertar o que ninguém entendeu.